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A relação entre envelhecimento e esclerose múltipla

A relação entre envelhecimento e esclerose múltipla

Na sessão “Aging and multiple sclerosis”, as palestrantes convidadas do MSVirtual 2020, a Dr.ª Burcu Zeydan, as Prof.as Doutoras Olga Ciccarelli e Catherine Larochelle incidiram sobre o impacto do envelhecimento nos diferentes fenótipos, na interpretação dos exames imagiológicos e nas novas intervenções terapêuticas da esclerose múltipla (EM).

A primeira intervenção, conduzida pela Dr.ª Burcu Zeydan, investigadora no departamento de Neurologia e Neuroradiologia da Mayo Clinic, teve como título “Aging & Multiple Sclerosis Phenotype.” A preletora começou por lembrar que “a evolução da fase recidivante remitente para a fase progressiva que ocorre tipicamente na quinta década de vida, o que exemplifica bem o papel da idade enquanto fator preditor desta evolução da EM”. “Para além dos mecanismos biológicos próprias desta patologia, também lutamos contra os mecanismos do envelhecimento que incluem a senescência genética, epigenética, do sistema imunitário e do sistema nervoso”, acrescentou. “Com efeito”, reiterou a especialista, “há uma série de observações na EM dependentes da idade”, nomeadamente:
• A capacidade de recuperação de recidivas, que diminui com a idade;
• A evolução para EM progressiva que aumenta com a idade;
• A eficácia das terapêuticas modificadoras de doença que diminui com a idade.
Ao longo da sua apresentação, a Dr.ª Burcu Zeydan fez uma revisão sucinta de alguns estudos sobre o impacto do envelhecimento nas diferentes manifestações de EM. Entre estes estudos, destacaram-se dois (Westley, et al. Cerebral Cortex 2010; Hasan, et al. Brain Struct Funct 2010) que demonstraram que a matéria branca atinge a maturidade por volta dos 30 anos, idade a partir da qual entra em declínio. “Esta constatação pode ser relevante para a transição que se observa na quinta década de vida da EM recidivante remitente para uma EM primária progressiva”, explicou. Durante o resto da apresentação, foram levantadas duas questões relativas às terapêuticas imunomoduladoras existentes e que carecem de resposta, nomeadamente:
• Se se deveria reavaliar ensaios clínicos com recomendações específicas para a idade dos doentes;
• Se o insucesso das terapêuticas usadas se deve às incertezas e dúvidas associadas à patogénese da EM cuja dinâmica dependente da idade.

Foi possível ainda concluir que:
• A maioria dos fármacos imunomoduladores são testados numa gama de idades restrita para potenciar ao máximo os seus efeitos;
• É preciso uma melhor compreensão da relação entre os mecanismos subjacentes ao envelhecimento e os fenótipos da EM;
• São precisas métricas imagiológicas específicas e sensíveis para avaliação in vivo do impacto pré-clinico e sub-clínico do envelhecimento nas EM;
• São necessárias estratégias de recuperação que possam aumentar o potencial de impacto durante a fase progressiva, assim como a recuperação no período pós-recidiva.

A segunda apresentação, protagonizada pela Prof.ª Doutora Olga Ciccarelli, docente e investigadora do Queen Square Institute of Neurology da University College London (UCL) versou sobre o tema “Aging and MS: an MRI perspetive.” Para contextualizar a problemática em questão, a especialista explicou que “a idade avançada é um fator de risco relevante para a evolução da EM para a fase progressiva devido ao aumento da desmielinização inflamatória e redução da eficiência de regeneração que acompanham o envelhecimento.” “Este facto tem consequências importantes na interpretação de exames de diagnóstico por ressonância magnética, em particular na distinção das alterações decorrentes da EM das alterações derivadas do envelhecimento”, alertou. Da sua apresentação, sobressaiu um estudo (Azevedo, et al. Neurology: Neuroimmunology & Neuroinflammation 2019) em que se verificou que a atrofia cerebral devido à EM sofre uma redução com o envelhecimento (a uma taxa de 0.1% por cada década de idade avançada), ao contrário da atrofia cerebral associada ao envelhecimento (aumenta a uma taxa de 0.11% por década). Porém, o núcleo caudado e o putâmen são zonas do cérebro aparentemente isentas destas variações.
Ao terminar a apresentação, foi possível concluir que:
• O declínio gradual do realce com gadolínio que se observa com o envelhecimento ocorre também na EM;
• A EM está associada a uma idade biológica mais avançada do que a respetiva idade cronológica de indivíduos saudáveis;
• Os limites considerados para a perda de volume cerebral consequente da EM têm que ser ajustados à idade cronológica;
• A atrofia cerebral excessiva além daquela que está prevista para a respetiva idade cronológica representa um potencial alvo terapêutico;
• Terapêuticas anti inflamatórias e neuroprotetoras poderão ser usados na fase mais precoce da EM que corresponde ao período em que o cérebro sofre mais atrofia devido à EM do que à idade.

A terceira e última apresentação, levada a cabo pela Prof.ª Doutora Catherine Larochelle, docente e investigadora da Universidade de Montreal, no Canadá, focou o tema “Aging in MS: Imunological perspective and potential intervention”. “Ao longo do envelhecimento, há uma série de alterações biológicas que conduzem a um estado de inflamação sistémica de baixo grau, fenómeno conhecido como inflammaging, que, por sua vez, compromete a resposta do sistema imunitário”, introduziu a palestrante. “Deste modo”, continuou, “o envelhecimento, e em concreto do sistema imunitário, denominado imunossenescência, pode contribuir para a componente inflamatória e para a componente degenerativa da EM”.
Partindo desta premissa, a apresentadora, juntamente com a Prof.ª Doutora Nathalie Arbour da mesma universidade, deu início a um projeto que procurou caraterizar marcadores imunológicos suscetíveis ao envelhecimento, como o β-NGF, IL-4, e IL-18, em indivíduos com EM e compará-los com os marcadores de indivíduos saudáveis. “Por enquanto, os resultados obtidos ainda são muito preliminares, mas pretende-se que os resultados finais permitam avaliar a associação da imunossenescência com a progressão da EM e com a resposta às terapêuticas”, esclareceu.
“No entanto, o papel do envelhecimento na EM e a compreensão dos seus mecanismos biológicos também podem permitir identificar novas intervenções terapêuticas”, advertiu. Assim, durante o resto da intervenção, a Prof.ª Doutora Catherine Larochelle explorou aquela que considera ser a intervenção mais promissora, a restrição alimentar de metionina, já que esta demonstrou “ser bem tolerada, retardar o aparecimento de doenças relacionadas com o envelhecimento e melhorar a sensibilidade à insulina, que piora com a idade”. Conforme concluiu, esta intervenção alimentar provou ser capaz de limitar a expansão de linfócitos Th17 e de IL-17 e ainda de melhorar a neuro inflamação, em modelos experimentais de EM.

sexta-feira, 25 setembro 2020 12:11
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