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Novas perspetivas da imunopatogénese da esclerose múltipla

Novas perspetivas da imunopatogénese da esclerose múltipla

A sessão plenária de encerramento do MSVirtual2020 contou com a participação do Prof. Doutor Stefan Bittner para falar sobre o tema “New Insights on Immunopathogenesis”, sob moderação do presidente do Comité do Programa Científico, o Prof. Doutor Benjamin Segal, e da vice-presidente do mesmo comité, a Prof.ª Doutora Mia Pia Amato.

Conforme o Prof. Doutor Stefan Bittner, professor de Neuroimunologia no Departamento de Neurologia da Johannes Gutenberg-University Mainz (Alemanha), referiu no início da sua apresentação, “o atual conhecimento da patologia da esclerose múltipla (EM) compreende duas etapas”. Na fase inicial ou focal verifica-se:

  • Migração de linfócitos T através da barreira hematoencefálica;
  • Reativação dos linfócitos T por células apresentadoras de antigénio no espaço perivascular;
  • Recrutamento de mais células imunitárias e desenvolvimento de lesão;
  • Desmielinização e dano neuronal no parênquima.

Já a fase tardia ou difusa é caracterizada por:

  • Provável compartimentalização da resposta imunitária;
  • Novos danos com enfâse no sistema imunitário inato e nas vias relacionadas com células da glia;
  • Desregulação das vias metabólicas intrínsecas aos neurónios.

Entretanto, “esta perspetiva simplista da biopatologia da EM pode estar em causa devido às evidências recentes de artigos de alto impacto”, afirmou o especialista. Como exemplo, mostrou alguns artigos que expandiram o estado da arte sobre astrócitos inflamados, a complexidade da composição de fagócitos mononucleares durante a neuroinflamação, e o papel das células mieloides no sistema nervoso central. Em particular foi destacado um estudo (Wesser et al., J ExpMed, 2020), no qual ficou evidenciada a capacidade fagocítica da microglia em relação a linfócitos T invasores e o seu papel na prevenção da inflamação.

Em seguida, o preletor focou a atenção num estudo da sua co-autoria (Bitnner et al., EBioMedicine, 2020) que aponta para a possibilidade dos neurofilamentos de cadeia leve (Nfl) emergirem como um novo biomarcador da EM. Tal como resumiu, “os Nfl mostraram estar correlacionados com outros marcadores de inflamação da EM e de previsão de incapacidade resultante da doença a curto prazo”. “Mesmo em coortes de doentes com EM muito precoce, os Nfl melhoraram a precisão do diagnóstico, tiveram valor no prognóstico e refletiram-se em decisões terapêuticas”, acrescentou.

Seguiu-se uma breve revisão dos estudos recentes mais relevantes sobre neuroinflamação. Uma das investigações destacadas (Schattling et al., NatNeuroscience, 2020) revelou que a neuroinflamação provoca a acumulação de proteínas tóxicas nos neurónios, efeito este que pode ser revertido por meio da ativação farmacológica de proteossomas.

Um outro trabalho (Ellwardt et al., NatNeuroscience, 2018) mostrou que a neuroinflamação é responsável pela hiperatividade neuronal em locais afastados da inflamação, durante a remissão. “Esta hiperatividade, a curto prazo, está associada a aumentos de ansiedade; a longo prazo, esta hiperatividade cortical conduz à neurodegeneração”, esclareceu.

Os artigos seguintes foram apresentados no âmbito dos “novos reguladores das vias imunitárias e funções específicas dos linfócitos T no sistema nervoso central”. Neste âmbito, realçou um estudo (McGinley et al., Immunity, 2020) que demonstrou que os fatores Insulin-Like Growth são críticos na regulação do balanço dos linfócitos Th17/Treg na autoimunidade.

De seguida, a atenção foi dirigida à propriedade dos linfócitos T de atacarem a matéria cinzenta do cérebro na EM progressiva. Segundo Lodygin et al. (Nature, 2019), “o envolvimento da matéria cinzenta é típico da EM progressiva”. “Os linfócitos T reativos contra a β-sinucleína estão associados a danos na matéria cinzenta em ratos e estão presentes em número elevado em doentes com EM progressiva”, explicou. Assim, “a β-sinucleína poderá vir a ser um alvo em fases tardias de autoimunidade”, acrescentou. Outro alvo que também pode ser considerado para terapêuticas futuras é a libertação de glutamato pelos linfócitos T.

Por fim, o Prof. Doutor Stefan Bittner abordou as perspetivas do mecanismo de ação de novos fármacos usados para o tratamento da EM. Neste contexto, começou por mencionar, a partir de um artigo (Klotz et al., SciTranslMed, 2019), um novo mecanismo de ação da teriflunomida, usado no tratamento da EM remitente recidivante. De acordo com os autores, a teriflunomida é capaz de corrigir perturbações metabólicas de linfócitos T, sobretudo com recetores de alta afinidade.

segunda-feira, 14 setembro 2020 12:14
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