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Eixo intestino-cérebro e microbiota intestinal: qual a sua relação e influência no desenvolvimento de EM?

Eixo intestino-cérebro e microbiota intestinal: qual a sua relação e influência no desenvolvimento de EM?

A décima sessão paralela foi dedicada ao tema “Gut-CNS axis and the microbiome in MS”. Sob moderação do diretor emérito do Max Planck Institute of Neurobiology (Alemanha), o Prof. Dr. Hartmut Wekerle, e da neurologista do Brigham and Women's Hospital (E.U.A.), a Dr.ª Tanuja Chitnis, alguns especialistas deram a conhecer dados importantes que reforçam a relação entre o eixo intestino-cérebro e a microbiota intestinal de doentes com esclerose múltipla (EM) e outras doenças neurodegenerativas.

“The Microbiome in Adult and Pediatric MS” foi o tema apresentado pela Prof.ª Doutora Emmanuelle Waubante e, para isso, a docente de Neurologia no UCSF Weill Institute for Neurosciences (E.U.A.) dividiu a sua intervenção em três partes. A primeira foi centrada na associação entre a microbiota intestinal e a suscetibilidade à EM. Dos vários estudos e artigos apresentados pela preletora, as principais conclusões foram:

  • Diversidade semelhante, em termos de microbiota, entre doentes com EM e os controlos (sem doença), mesmo em gémeos monozigóticos discordantes;
  • Foi reportada a existência de depleções ou enriquecimentos taxonómicos discretos em doentes com EM versus controlos, alguns variam entre estudos;
  • Diferentes exposições podem modular a microbiota;
  • A microbiota contribui para os níveis de metabolitos em circulação e para a resposta imunitária;
  • Mas a casualidade entre a microbiota e a ocorrência de EM não foi demonstrada.

A segunda parte da palestra da Prof.ª Doutora Emmanuelle Waubante teve como foco a relação entre a microbiota e curso da patologia. De uma forma geral, as mensagens transmitidas pela docente de Neurologia e investigadora foi de que “muito pouco é conhecido sobre as associações entre os microrganismos do intestino e o risco de recidiva, e nada se sabe relativamente à influência do microbioma na progressão da incapacidade”. Sabe-se que existem “associações temporárias, mas a sua casualidade não está demonstrada” e, por isso, “são necessários estudos longitudinais com um maior número de doentes”.

Por fim, a Prof.ª Doutora Emmanuelle Waubante falou sobre as intervenções que têm como alvo a microbiota intestinal em doentes com EM, indicando desde logo que “os dados são limitados no que se refere disbiose intestinal associada ao curso da patologia”. Portanto, é essencial que se façam ensaios clínicos de intervenção baseados nos microrganismos possivelmente associados à progressão da doença.

Imunopatologia do sistema nervoso entérico na EM

Este foi o tema da segunda apresentação da sessão, levada a cabo pela Prof.ª Dr.ª Stefanie Kürten, docente e investigadora na Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg (Alemanha). “Será que a EM pode ser originada fora do sistema nervoso central?”, questionou a oradora. Para ajudar a responder à sua pergunta, a Prof.ª Dr.ª Stefanie Kürten falou do estudo que o seu grupo de investigação fez sobre a encefalomielite autoimune experimental (EAE), que é o modelo murino mais comum da EM, para analisar a patologia do sistema nervoso entérico.

Os primeiros resultados demonstraram que “a patologia no sistema nervoso entérico ocorre antes da degeneração do sistema nervoso central, em particular no plexo mioentérico”, sendo “mediada por anticorpos” e tendo o “envolvimento de alvos autoantigénicos (partilhados entre o sistema nervoso entérico e o sistema nervoso central, tais como, a proteína básica de mielina e a proteína proteolipídica)”. Mais ainda, paralelamente à doença, observou-se “uma redução significativa na motilidade intestinal”.

Antes de terminar, a Prof.ª Dr.ª Stefanie Kürten realçou a necessidade de mais investigação que corrobore estes resultados sobre a degeneração do sistema nervoso entérico, que parece estar igualmente envolvido em muitas outras doenças neurodegenerativas.

Disbiose intestinal e neuromielite ótica (NMO)

Realizada pela Prof.ª Doutora Zahra Moinfar, docente e investigadora postdoc no UCSF Weill Institute for Neurosciences (E.U.A.), a última palestra foi dedicada à NMO e à hipótese de que a microbiota intestinal destes doentes pode ter influência na regulação das respostas inflamatórias e, consequentemente, na sua patogénese.

O grupo de investigação do qual a Prof.ª Doutora Zahra Moinfar realizou estudos em ratinhos C57BL/6-Germ-Free, colonizados com amostras fecais controlos saudáveis e de um doente com NMO não tratado, durante cinco semanas. Após este tempo, os ratinhos foram examinados para a suscetibilidade à EAE.

Tendo em conta os dados obtidos, o grupo de investigação concluiu que a microbiota fecal de doentes com NMO aumenta a suscetibilidade à EAE. Por outro lado, a redução na frequência de células Treg no intestino dos ratinhos colonizados com NMO fecal pode contribuir para a exacerbação da EAE. Contudo, são necessárias mais análises para se perceber efetivamente o papel da microbiota intestinal no desenvolvimento da NMO e, para isso, o grupo de investigação tem um estudo a decorrer.

domingo, 13 setembro 2020 19:33
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