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Papel de diferentes subconjuntos de linfócitos na patogénese da esclerose múltipla

Papel de diferentes subconjuntos de linfócitos na patogénese da esclerose múltipla

Tradicionalmente considerada uma doença autoimune mediada por células T CD4+, a esclerose múltipla (EM) tem hoje armas terapêuticas que provam a influência de outras células do sistema imunitário na evolução da patologia. Por isso, “Lymphocyte subsets in MS” foi o tema da sexta sessão paralela que contou com várias apresentações, decorridas sob moderação da Prof.ª Doutora Estelle Bettelli, do Benaroya Research Institute, e do Prof. Dr. Bernhard Hemmer, da Universidade de Munique.

“New insights into the role of T cell subsets during MS” foi o tópico apresentado pelo Prof. Doutor Naresha Saligrama, professor assistente de Neurologia na Washington University in St. Louis - School of Medicine, que começou por demonstrar que as células T CD4+ e a sua relação com a EM é o alvo da maioria dos estudos e, por isso, está melhor caracterizada.

De seguida, o orador afirmou que a encefalomielite autoimune experimental (EAE) é o principal modelo animal para a EM e que existem alguns estudos em ratinhos que demonstraram que, “além das células T CD4+, existem outros tipos de linfócitos T envolvidos na ocorrência de EM”.

Assim, o grupo de investigação liderado pelo Prof. Doutor Naresha Saligrama foi estudar exatamente a diversidade e a especificidade de cada tipo de célula T, e a respetivas funções, tendo conseguido demonstrar que “a indução de EAE gera ondas sucessivas de células T CD4, T CD8 e T γδ expandidas clonalmente no sangue e no sistema nervoso central”. Por outro lado, o grupo observou a presença de “células T CD8 no sangue e no líquido cefalorraquidiano de doentes com EM”.

Segundo o Prof. Doutor Naresha Saligrama, o grupo observou também que na EAE, “a maioria das células T CD4 expandidas são específicas para o péptido de mielina MOG35-55”. “No geral, os nossos resultados sugerem que a indução de células T CD4 autorreativas desencadeia uma mobilização oposta de células T CD8 reguladoras”, foi a conclusão.

Mecanismos de ação das células B

O Prof. Doutor Jeffrey Bennett, docente de Neurologia na University of Colorado School of Medicine, “levou” ao MSVirtual o tema “Mechanisms of Action of B Cells”, começando desde logo por evidenciar o papel central das células B na EM, referindo alguns estudos que mostram que “as células B e células plasmáticas são encontradas em níveis elevados no líquido cefalorraquidiano de doentes com EM e em lesões desmielinizantes”.

Ao longo da sua preleção, o Prof. Doutor Jeffrey Bennett citou alguns ensaios clínicos de fase 3, nos quais “doentes com EM recidivante tratados com anticorpos monoclonais anti-CD20 demonstraram redução na atividade da lesão por ressonância magnética, nas recidivas clínicas e na progressão da incapacidade”. Mais ainda, “ensaios clínicos de fase 2 com inibidores da tirosina cinase de Bruton (BTK) mostraram uma redução nas lesões ativas por ressonância magnética”.

Tal como explicou o orador, “as células B e as células plasmáticas podem modular a atividade da doença através de vários mecanismos, incluindo a apresentação de antigénios, secreção de citocinas pró- e anti-inflamatórias e produção de autoanticorpos”. “Análises moleculares e funcionais de populações de células B indicam que subpopulações de células B e células produtoras de anticorpos maduras (plasmablastos e células plasmáticas) exibem interações complexas com outras populações de células imunes para modular a atividade da EM na periferia e dentro do sistema nervoso central”, aprofundou, referindo ainda que “esses efeitos são posteriormente modificados por imunoglobulinas secretadas que atuam independentemente ou em conjunto com outras respostas imunes celulares”.

Para terminar, o Prof. Doutor Jeffrey Bennett assinalou que a investigação no futuro passa por “investigações translacionais sofisticadas e modelos experimentais”, com o objetivo de “aumentar a compreensão da fisiopatologia das células B na EM e avançar no desenvolvimento de novas terapêuticas das células B”.

Também focada nas células B, a Dr.ª Rita Loudermilk, investigadora na University of California San Francisco, apresentou o tema “The antigenic repertoire of CSF-derived B cells in early untreated multiple sclerosis”. Em jeito de enquadramento, a palestrante afirmou que “são encontradas mais células B nas lesões ativas do que nas inativas”, sendo que “a sua expansão clonal intratecal, e a produção de bandas oligoclonais são marcos reconhecidos de EM”. “As terapêuticas de depleção das células B quase eliminam novas recidivas e desacelera a acumulação de incapacidade na doença progressiva”, completou.

“Qual é o repertório antigénico das células B de memória class-switched, derivadas do líquido cefalorraquidiano, em doentes com EM precoce”, foi a questão que o grupo de investigação do qual a oradora faz parte tentou responder. Para isso, sequenciaram imunoglobulinas de células plasmáticas do líquido cefalorraquidiano, plasmablastos, e células B de memória class-switched de nove doentes não tratados (cinco com EM surto-remissão e quatro com síndrome clínica isolada (CIS). Destes, foram gerados anticorpos monoclonais (mAbs) que “mostraram diversas especificidades de antígeno”. Do painel de 75 mAbs derivados de células plasmáticas, plasmablastos e células B de memória class-switched encontradas líquido cefalorraquidiano de doentes com com EM surto-remissão/CIS precoces não tratados, foi identificado um repertório diversificado de alvos antigénicos, com a maioria composta de proteínas intracelulares do hospedeiro, “sendo que dois mAbs anti-substância branca foram identificados por imunomarcação”.

Finalmente, coube ao Doutor Darius Häusler, do Institut für Neuropathologie der Universitätsmedizin Göttingen, realizar a última intervenção da sessão, “B cells regulate chronic CNS inflammation in an IL-10-dependent manner”, durante a qual apresentou o estudo do seu grupo de investigação, cujo “objetivo foi analisar a interação das células B com as células residentes no sistema nervoso central na modulação da inflamação crónica do sistema nervoso central”.

Para isso, “microglia primária e astrócitos foram gerados a partir de ratinhos C57BL/6 recém-nascidos e foram incubados com células B ativadas ou seus sobrenadantes”. “A produção de IL-6 e IL-10 foi anulada por ablação genética ou neutralização de IL-6 ou IL-10 com recurso a anticorpos específicos”, explicou, continuando: “Depois disso, as células residentes no sistema nervoso central foram cocultivadas com células T específicas para MOG”.

Os mesmos ratinhos C57BL/6 foram depletados de células B através da aplicação de injeções subcutâneas semanais de 0,2 mg de anti-CD20 murino, antes da imunização com o péptido MOG p35-55, “um setting no qual as células B permanecem naïve”.

A avaliação da ativação/modulação da microglia e dos astrócitos foi feita por enzyme-linked immunosorbent assay (ELISA), por citometria de fluxo, imunohistoquímica e qRT-PCR.

Em termos de resultados, o Doutor Darius Häusler mostrou que a “incubação de microglia primária ou astrócitos com sobrenadante de células B neutralizadas por IL-10 ou co-cultura com células B deficientes em IL-10, resultou no aumento da produção de citocinas pró-inflamatórias, uma regulação positiva de moléculas coestimuladoras, bem como uma capacidade aumentada para ativar as células T como células apresentadoras de antigénios”.

“A depleção de células B naïve piorou a gravidade clínica da EAE e aumentou o número de células imunes infiltradas no sistema nervoso central. Isto está associado a uma expressão aumentada das moléculas envolvidas na apresentação de antigénios na microglia, assim como a uma regulação positiva de produtos genéticos pró-inflamatórios nos astrócitos”, concluiu.

domingo, 13 setembro 2020 00:14
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